Raio-x de um país numa panela de pressão

Apontamentos sobre a conjuntura argentina

Falta dizer que isso [ou seja, o ‘modelo’ mileísta] não é simétrico, não é metade uma coisa e metade outra. Em um caso, o segmento vencedor (extrativista, energia, campo) mal arranha 20% da economia (PIB) (…). Por outro lado, o segmento perdedor gira em torno de 50% (indústria, comércio, construção), com forte heterogeneidade negativa em seu interior. O restante do PIB é neutro, muito difícil de interpretar nas contas nacionais e em seus cálculos, e com pouca percepção na vida cotidiana. Portanto, a ideia de duas velocidades, que sugere simetria, não é correta. Não há dualidade. Há fragmentação regressiva.

Carlos Melconian, La Nación, 25/04/26

 

Em ‘O materialismo histórico’, Bukharin, por exemplo, fala da ‘sociedade’ como se, de fato, fosse uma matéria, uma matéria morta [e não como o que é, uma realidade viva].

Raya Dunayevskaya

Traducción al portugués de Esquerda Web

A conjuntura argentina está caracterizada neste momento por uma espécie de dialética entre dois termos: a) a abertura de um interregno no domínio da extrema direita (ou seja, a possibilidade de deslocamento do pêndulo político um pouco mais ao centro) e b) a contraofensiva dessa mesma extrema direita diante das frentes de conflito que se abriram.

De certo modo, um fio invisível unifica a situação da extrema direita e de Trump no mundo ocidental com o que está acontecendo no país, pois pode-se afirmar que nos EUA também se abriu uma conjuntura semelhante entre a queda da popularidade de Trump e a reação do trumpismo para manipular as eleições de novembro, entre outras “iniciativas” bonapartistas.[1]

Há vários ângulos possíveis para essa análise que, em certa medida, também é feita pelos analistas burgueses — embora a partir de um ponto de vista distinto do marxismo. Eles veem tensões e interrogações na passagem de um “modelo” a outro; nós analisamos a partir da relação de forças entre as classes, que, logicamente, tem base material tanto nas esferas estruturais e econômico-sociais quanto na superestrutura: o Estado e o regime político (incluindo o regime de partidos que o governo pretende atropelar com seu novo projeto de lei eleitoral).[2]

Desenvolvamos, então, brevemente nossos elementos de análise.

1- Interregno ou reafirmação reacionária?

O primeiro dado mais conjuntural é que o governo tenta reagir diante da sensação de crise política, econômica e social, e da abertura de um interregno (a dúvida sobre se continuará ou não após 2027, para simplificar).[3] O governo vinha eufórico com sua vitória com a reforma trabalhista em fevereiro, mas março foi um mês para esquecer. Inicialmente, a lei trabalhista foi suspensa (embora depois dois desembargadores tenham revertido a suspensão e o recurso tenha ido para uma câmara favorável ao governo); Adorni ficou sob pressão por enriquecimento no poder (ainda que o mileísmo esteja decidido a sustentá-lo); a marcha de 24 de março, pelos 50 anos do golpe, foi histórica e reafirmou o Nunca Mais contra o negacionismo oficial. E, sobretudo, a crise econômica e social começou a se fazer sentir de forma dramática: a maioria da sociedade não consegue “viver em paz” sob um estagflação interminável e um ajuste fiscal que busca desmontar serviços essenciais do Estado.[4]

Paralelamente, no plano internacional, Trump se atolou no Irã e fracassou em grande parte de seus objetivos, além de outros sinais negativos para a extrema direita, como a derrota eleitoral de Orbán na Hungria.

No entanto, nas últimas semanas houve uma mudança no que diz respeito à abertura desse interregno. Nas discussões no seio da nossa corrente, assinalamos corretamente que esse interregno está apenas começando, em contraposição às opiniões que viam o processo como um avanço mais mecânico da direita para a esquerda.

A realidade de contexto não deve ser perdida de vista para não nos confundirmos diante das mudanças conjunturais ou das tendências iniciais: a conjuntura internacional de longo prazo é reacionária, e a etapa aberta por Milei em 2023 também o é. Isso significa que uma das tendências de fundo do período político é o reacionarismo, em todos os planos; portanto, qualquer análise que façamos não pode perder esse elemento de vista (embora também não se deva absolutizá-lo, como fazem analistas que falam do caráter “fascista” desses governos ou de uma suposta “derrota” já consumada. A realidade é que, embora tenham avançado em corroer o regime político da democracia burguesa, em nenhum caso — até agora — conseguiram ultrapassá-lo, instaurando regimes lisa e abertamente bonapartistas).

Com base nessas tendências reacionárias acumuladas, no fato de que detêm governos e de que todos os aparelhos políticos jogam, à sua maneira, para a reação (como demonstraram recentemente as eleições conservadoras da Universidade de Buenos Aires, com níveis escandalosos de arbitrariedade que tomaram o movimento estudantil como refém), é isso que permite ao governo ensaiar uma contraofensiva que, embora não resolva seus problemas de fundo, mostra como se formam e se desfazem mini-conjunturas marcadas ora pelo interregno, ora pela contraofensiva da extrema direita para resguardar suas posições. Tal é a bipolaridade dessa situação de polarização extrema que vive o mundo e a Argentina, e que marca os desenvolvimentos em todos os terrenos: econômico-social, político, geopolítico e no nível da luta de classes. Uma polarização extrema que sinaliza a abertura de uma etapa de crises, guerras, reação e, eventualmente, revoluções no século XXI.

Milei acaba de reafirmar que “a ortodoxia não se mexe”, o que significa que, para sustentar o superávit fiscal, por exemplo, segue disposto a descumprir leis aprovadas nas áreas de deficiência e universidade. Também decidiu sustentar Manuel Adorni a qualquer custo (neste momento, acompanhando-o ao Congresso Nacional para apresentar seu relatório de gestão); consideram que ceder nesse ponto teria um custo político maior do que mantê-lo. Além disso, apresentaram um conjunto de projetos de lei ao Congresso Nacional, entre os quais se destaca, por seu caráter profundamente reacionário, a lei eleitoral, que estabelece dispositivos brutalmente antidemocráticos dos quais quase ninguém fala: as condições para formar e manter partidos tornam-se praticamente impossíveis fora do peronismo e de La Libertad Avanza em sua atual configuração (não apenas a esquerda pode ser afetada por cláusulas inalcançáveis de sustentação partidária, mesmo atuando em frentes, mas também outras formações burguesas).

O fundamental aqui é que a reafirmação do governo, no contexto de queda de popularidade e do aumento da indignação popular diante de uma crise econômica e social imparável, transforma a conjuntura numa verdadeira panela de pressão que pode desembocar em uma explosão social (ainda que de outra natureza; não devemos esquecer aqui a crise nas universidades, as greves infelizmente passivas e a grande marcha de 12/05 que se anuncia massiva).

A contradição mais profunda da conjuntura atual é, precisamente, o choque entre a reafirmação governamental e a crise econômico-social que avança dia e noite, sem fim. O temor de meios influentes como La Nación, expresso por seus colunistas — como se vê neste texto —, é que a sociedade exploda de forma descontrolada nos próximos meses, apesar da contenção exercida pelo peronismo, isto é, antes que o processo eleitoral consiga canalizar todo esse mal-estar.

2- Fragmentação regressiva

O pano de fundo mais importante dessa dinâmica de “explosão ou implosão social” é a crise econômica e social, que se tornou imparável. Sua base não é apenas — nem principalmente — o reacionarismo político do governo, que até agora não conseguiu ultrapassar o regime democrático burguês, embora tente fazê-lo novamente com a lei eleitoral; seu principal aspecto reacionário é econômico e social, tendo como base material a própria crise econômica.

Destacados jornalistas como Jaquelin e Jorge Liotti Liotti, e inclusive economistas reconhecidos do establishment como Carlos Melconian, vêm insistindo em uma preocupação grave: que o “modelo” econômico mileísta responde a apenas 20% do PIB e deixa de fora os outros 50%. Ou seja, atende às províncias e localidades ligadas à energia, mineração e agropecuária, mas se desinteressa pelos principais agrupamentos populacionais do país, que são os centros suburbanos. A Grande Buenos Aires, inclusive partes da própria Cidade de Buenos Aires (que o PRO abandona porque não o votam), e outros centros suburbanos da Argentina dependente e semi-industrializada (sejam de primeira geração, dos anos 30/40, como a hoje obsoleta zona sul do GBA, ou de segunda geração, dos anos 60, como a zona norte do GBA ou a grande Córdoba), estão sofrendo um abandono descomunal.

Trata-se de agrupamentos populacionais com características de megalópoles, marcados não apenas pela extrema precarização do trabalho, salários miseráveis, demissões cada vez mais massivas etc., mas também pelo colapso dos serviços públicos (viajar de transporte público no GBA é uma odisseia diária). Jorge Liotti assinala que “as assimetrias entre os diferentes setores produtivos começaram a ser percebidas nos primeiros dias da gestão libertária como um fenômeno emergente, mas agora estão se cristalizando como um traço estrutural. A última medição do Estimador Mensal de Atividade Econômica (EMAE) (…) foi uma demonstração muito clara. O relatório referente a fevereiro mostrou uma queda geral da atividade de 2,1% em termos interanuais e de 2,6% em relação a janeiro. Um novo sinal de que o primeiro trimestre foi muito duro para a economia argentina” (La Nación, 26/04/26).

Liotti acrescenta que o quadro é marcado pela disparidade absoluta entre os diferentes setores analisados, em oposição às afirmações superficiais de Luis Caputo de que “os melhores 18 meses da história do país estão por vir” (sic). “De um lado, aparecem os vencedores: a pesca cresceu 14,8% em termos interanuais; a mineração, 9,9%; a agricultura, 8,4%; e os bancos, 6,6%. De outro, os perdedores: a indústria manufatureira, com uma queda interanual de 8,7%, e o comércio, com retração de 7%. De um extremo ao outro, há diferenças de mais de 20 pontos de atividade. É uma paisagem que se tornou habitual, embora não esteja claro até que ponto é sustentável no tempo, porque, como assinalou Carlos Melconian (…), enquanto o setor vencedor ‘mal arranha 20% da economia’, o perdedor ‘gira em torno de 50% do PIB’. Por isso, ele descarta a ideia de uma economia em duas velocidades — ‘porque dá uma ideia de simetria’ — e prefere falar em uma ‘fragmentação regressiva’” (Liotti, idem).

Isso significa que a economia argentina não apenas está mergulhada em um estagflação, mas que, inclusive para economistas burgueses de peso, o “modelo” econômico de Milei é “regressivo” e “fragmentador”. Poderíamos dizer que não responde a um “projeto de nação”, mas afunda o país como tal, porque um país não é apenas sua economia no sentido estrito do termo: em um mundo globalizado, mas ainda marcado por Estados nacionais, não se pode assumir a responsabilidade por uma parte da população e abandonar a outra. Esse é o caminho mais direto, mais cedo ou mais tarde, para uma explosão social. O Estado capitalista governa para os capitalistas, mas não pode se desinteressar da sociedade e da governabilidade, pois, nesse caso, perde os atributos característicos de um governo.

E isso é precisamente o que está ocorrendo sob o mileísmo: como assinalou de forma antecipada, há alguns anos, nossa companheira Manuela Castañeira, no programa “A dos voces” da TN, diretamente a Milei, na sua economia não cabe a sociedade.

O conceito de “fragmentação regressiva” é interessante porque capta um aspecto profundo do que está ocorrendo na esfera econômico-social, um aspecto reacionário nesse terreno. Exemplos disso estão relacionados, inclusive, ao fato de que o Estado se desresponsabiliza dos interesses comuns (é próprio do Estado ter um caráter de classe, mas isso não elimina o fato de que, à sua maneira burguesa, deva atender interesses gerais — o Estado é uma necessidade até certo ponto e até determinado momento histórico, como afirmava Friedrich Engels em A origem da família, da propriedade privada e do Estado).[7]

As provas são evidentes. O PAMI entra em colapso e deixa milhões de aposentados sem atendimento — não importa. O Serviço Meteorológico Nacional (SMN) é desmontado e supostamente será “substituído por máquinas automatizadas” — não importa que isso coloque em risco a segurança da população em geral e do setor aeroportuário em particular. “A ATE SMN questionou a ideia de ‘economia’ orçamentária utilizada pelo ministro para justificar as 140 demissões, especialmente tratando-se de um serviço crítico: ‘Ignora-se o papel do SMN na segurança da população. Alertas precoces, aviação, navegação marítima e fluvial, produção agropecuária e gestão de emergências dependem de um sistema robusto, não de um reduzido ao mínimo e sem capacidade de resposta diante de fenômenos severos e de uma mudança climática que de fato existe (…) Segundo o sindicato, as estações automáticas (…) não substituem completamente o trabalho humano: ‘não substituem a observação humana, a complementam’” (La Nación, 26/04/26).

A economia afunda em uma grave recessão, o dólar está artificialmente atrasado, a inflação ainda não rompe a marca elevada de 3% ao mês; não importa: tudo é sacrificado no altar do suposto “princípio científico” do superávit fiscal — princípio que, além disso, está ameaçado pela queda da arrecadação e pela ausência de emissão monetária, como se essa emissão fosse um fator independente do funcionamento geral da economia e da produtividade agregada.

3- Entre a contenção e o transbordamento social

Essa fragmentação regressiva da economia acendeu todos os alarmes no terreno social. Não é necessário ser marxista para percebê-la; os próprios editorialistas e economistas burgueses que estamos citando neste artigo alertam sobre isso, e ninguém poderia dizer que tenham simpatias pelo anticapitalismo ou pela esquerda.

Quando falamos do PAMI, estamos falando de milhões de aposentados e aposentadas. O fato concreto é que o PAMI, desfinanciado e incapaz de pagar seus prestadores, acaba de anunciar que, pura e simplesmente, deixará de atender centenas de milhares — ou mesmo milhões — de usuários em quatro províncias. Além disso, na zona oeste da Grande Buenos Aires, sanatórios inteiros do PAMI estão sendo fechados pelo mesmo motivo.

A crise social da “panela de pressão” do modelo mileísta — somada aos descalabros de todos os governos burgueses anteriores, peronistas e macristas por igual — é tal que já se começa a falar no surgimento de uma situação social semelhante, ainda que não idêntica, à de 2001 ou 2023, sobretudo no centro do país (no interior, a situação é diferente). É evidente que as respostas não foram as mesmas em 2001 e em 2023 — uma marcada pelo desemprego massivo e a outra pela hiperinflação — e tampouco se pode prever quais serão agora: que combinação de respostas sociais poderá surgir e como seguirá atuando a contenção peronista e da CGT, que até o momento vem funcionando.

A vida cotidiana de milhões de pessoas tornou-se dramática. Quem tem trabalho precisa, muitas vezes, mantê-lo em dois ou três lugares ao mesmo tempo para tentar chegar ao fim do mês. O trabalho, em inúmeros casos, tornou-se precarizado. Chegar ao trabalho é outra aventura diária. O consumo foi reduzido ao mínimo. Viver — ou melhor, sobreviver — tornou-se uma odisseia: “(…) a área metropolitana de Buenos Aires, onde se concentra a maior parte da população do país e, ao mesmo tempo, os maiores efeitos negativos da política econômica, começa a estar sob observação. Sua condição de caixa de ressonância com altíssima visibilidade impõe esse olhar (ou essa escuta) (…) Há uma sensação generalizada de impossibilidade: por mais que se esforce, não se consegue avançar. Registra-se uma tensão constante entre a penúria e a resistência ativa: rejeita-se a resignação, mas reconhece-se que a margem está diminuindo. A raiva começa a superar a angústia e o clima passa a se parecer com o que levou Milei ao poder (…)” (Liotti, La Nación, 27/04/26).

Liotti afirma que há mais um clima de implosão do que de explosão social, mas, evidentemente, trata-se de um par dialético que pode evoluir em qualquer direção, dependendo de uma multiplicidade de fatores: uma explosão social ou uma canalização eleitoral mediada pela contenção peronista.

Além disso, o próprio jornalista destaca que um dos economistas mais valorizados pelo governo, Ricardo Arriazu, vem alertando para “a alta velocidade da destruição e a lenta capacidade de construção da transformação em curso”, e acrescenta que o economista Roberto Frenkel adverte que “se não houver mudanças, entre elas no tipo de câmbio, ‘isso não é sustentável nem duradouro’” (idem).

O experimento da extrema direita está sendo colocado em questão no mundo e na Argentina. Quando falamos da abertura de um interregno, queremos dizer que o pêndulo pode começar a se deslocar da extrema direita para o centro e para a esquerda. A globalização liberal-social está tensionada pela concorrência com a emergência da China, mas ainda possui certa coerência interna. O projeto territorializado de Trump ainda não produziu resultados concretos e revelou seus limites na incapacidade de derrotar o regime dos aiatolás. Além disso, Trump enfrenta dificuldades para as eleições de meio de mandato em novembro e, apesar de suas bravatas, pode acabar como um “pato manco” [NT: expressão em espanhol, pato rengo, ou em inglês lame duck, para caracterizar um governo/mandato que sai enfraquecido]. É sustentável romper com aliados como a União Europeia, o Japão e a OTAN para enfrentar a China? Esse é o melhor caminho? É sustentável desafiar instituições centenárias da democracia imperialista norte-americana? Não seria mais eficaz recuar para avançar depois de forma mais consistente?

Na Argentina, a divisão burguesa também está na ordem do dia. Há vencedores e perdedores. Toda a patronal apoia a contrarreforma trabalhista, mas nem todos concordam com um tipo de câmbio artificialmente baixos, que reduz a competitividade quando está só é obtida via redução salarial e precarização do trabalho. O que acontece com a obra pública? Que competitividade pode ter um país cujo Estado não investe em infraestrutura? As próprias estradas existentes estão se deteriorando. Até quando será possível garantir a governabilidade quando os centros suburbanos ficam completamente desprotegidos?

Essas são algumas das dúvidas que assaltam a burguesia ao pensar em 2027. Além disso, setores inteiros estão perdendo dinheiro. O enraizamento nacional do empresariado — inclusive multinacional — continua sendo uma realidade, assim como o capital investido no país. Portanto, não é indiferente se o país entra em colapso ou não, se perde governabilidade ou não, se oferece confiança para investimentos de longo prazo ou não. Daí surge a questão central: a sustentabilidade do “plano” Milei.

4- Minnesota no futuro argentino?

É aqui que entra o papel de contenção do peronismo. Sua lógica é “quanto pior, melhor”. O calendário eleitoral da governabilidade aceita que, no meio do caminho, se destruam o país, as universidades, o PAMI, os direitos das pessoas com deficiência — o que for — desde que não haja um transbordamento social. Tudo vale desde que o descontentamento seja canalizado até 2027 para tentar derrotar eleitoralmente o mileísmo.

O peronismo faz oposição dentro do Congresso Nacional da Argentina; para fora, no terreno concreto, não move um dedo. Tanto é assim que deixou passar a oportunidade aberta após a vitória de Axel Kicillof Kicillof na província de Buenos Aires.

Por sua vez, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) convocou uma greve passiva, embora massiva, contra a reforma trabalhista em fevereiro, mas não deu continuidade. Apostou na judicialização — que agora se mostra um beco sem saída, já que o empresariado e o regime político apoiam a contrarreforma.

Há aqui dois problemas de fundo. Primeiro, essas formações liberal-sociais ou social-liberais jogam apenas o jogo institucional, enquanto a extrema direita atua simultaneamente dentro e fora das instituições. Segundo, mesmo quando divergem sobre o modelo econômico, permanecem presas aos limites do capitalismo atual, sem qualquer perspectiva anti-imperialista ou anticapitalista. Ao ultracapitalismo mileísta opõem um “estatismo” vazio, sem base material, já que sequer questionam o pagamento da dívida externa — que há décadas drena a riqueza nacional.

Assim, o peronismo e a CGT acabam reforçando o próprio quadro reacionário: paralisam os explorados e oprimidos, controlam os movimentos sociais e subordinam o movimento estudantil, como ocorreu recentemente nas eleições da Universidade de Buenos Aires (UBA).

A vivência de um período reacionário é exatamente como a maioria da população a experimenta: como se estivesse dentro de uma panela de pressão. E isso é compreensível: o governo, apoiado pelo regime e pelo empresariado apesar de suas divisões, colocou a sociedade numa panela de pressão de uma “mudança de modelo” que torna impossíveis as condições de vida.

“Até agora é possível identificar três tipos de assimetrias que têm raízes profundas no tempo, mas que se tornaram visíveis como derivações do atual programa econômico. Por um lado, aquela que surge ao observar o desempenho desigual dos diferentes setores produtivos, entre os que encontraram maiores facilidades na abertura comercial e os que a sofrem, e entre os que têm projeção global e os que dependem do mercado interno. A segunda linha divisória emerge entre os grupos sociais, com uma classe alta e média alta que acelerou suas compras em dólares e que se beneficia do tipo de câmbio, e classes média-baixa e baixa que consomem menos e têm grandes dificuldades para chegar ao fim do mês. E a terceira bifurcação é a geográfica (…) A nova Argentina está sendo construída sobre essas três linhas de fratura. Trata-se da tentativa de reconversão mais profunda da concepção de país desde o esgotamento do modelo de substituição de importações em meados dos anos 70”.
(Liotti, La Nación, 26/04/26)

As assimetrias apresentadas aqui do ponto de vista da burguesia significam exatamente o que estamos apontando: precarização generalizada, salários miseráveis, aumento das demissões e fechamento de fábricas, colapso dos serviços públicos etc. A situação lembra, em certa medida, o famoso texto de Vladimir Lenin, de setembro de 1917, A catástrofe que nos ameaça e como enfrentá-la.

É verdade que em 1917 havia uma revolução em curso na Rússia, o que por enquanto não ocorre em nosso país. No entanto, diante do sufocamento econômico-social e do colapso do Estado czarista, a “receita” proposta por Lenin é a mesma que emergiu em Minneapolis (onde tampouco há uma revolução em curso nos Estados Unidos!) e que poderia emergir na Argentina diante de qualquer mudança de cenário (além da necessidade de unidade da esquerda em caso de uma canalização eleitoral): o transbordamento do Estado não apenas pela direita, mas também pela esquerda. Ou seja, diante do desmonte estatal promovido pelo mileísmo, a tarefa estratégica — a perspectiva — é que a sociedade assuma em suas próprias mãos as tarefas coletivas (como fazem, de maneira exemplar, os trabalhadores da Fate há mais de dois meses, ocupando pacificamente a fábrica).

Períodos como o que estamos vivendo têm essa dupla dialética: implosão ou explosão social. Há perigos, mas também possibilidades revolucionárias. E na Argentina, apesar de todos os ataques, não há uma derrota consolidada, como se viu no dia 24 de março. Uma etapa reacionária pode se transformar em uma situação pré-revolucionária a qualquer momento — e é isso que preocupa os analistas burgueses: até quando o “modelo” mileísta será sustentável?

5- O desafio da esquerda

Nesse quadro colocam-se as tarefas da esquerda revolucionária na Argentina. Comecemos pelo que não se deve fazer. Por um capricho internista, o PTS entregou ao peronismo o centro acadêmico da faculdade mais importante da esquerda, Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires (está claro que o PTS é o dono do FITU; o PO atual não passa de uma pálida sombra do que foi há 15 anos). Entre os 27% obtidos pelo FITU (caindo 13 pontos desde 2022!) e os 13,5% conquistados pelo ¡Ya Basta! (crescendo 4 pontos em relação à eleição anterior e sendo a maior agrupação militante cotidiana da faculdade [8]), seria possível ter conquistado o centro mesmo nas condições conservadoras da eleição na UBA. Era fundamental ganhá-lo para que Filo se tornasse um polo na luta nas ruas em defesa da universidade!

Os estudantes foram feitos reféns entre as autoridades e a Franja Morada, que anteciparam as eleições para abril, ou seja, sem que o corpo estudantil pudesse vivenciar o ano letivo, e com greves passivas que não os convocam como sujeitos.[9]

Em seguida, veio a provocação contra o ¡Ya Basta! como resposta ao retrocesso: as campanhas eleitorais do FITU em toda a UBA (em alguns casos unificadas e em outros divididas) foram uma vergonha: não houve militância orgânica, não houve agitação, não houve disputa real de votos; conceberam a campanha como uma “chuva de votos” baseada na “popularidade de Myriam Bregman”, uma chuva que nunca chegou.

Diante disso, o PTS orquestrou uma provocação a partir de 26/05 com uma acusação falsa contra todo o ¡Ya Basta! — ou seja, passaram a “militar” depois que a eleição já havia terminado.

É verdade que a extrema direita interveio na interna da esquerda. Mas isso foi utilizado pelo PTS como uma amalgama de tipo estalinista para encobrir o que não pode ser encoberto: que seu balanço é desastroso, pois, em vez de unificar em Filosofia e Letras, voltaram a dividir e entregaram o centro ao peronismo.

Por meio dessa provocação, tentam ocultar que o ¡Ya Basta! foi a única agrupação da UBA que cresceu nessas eleições: contra todas as adversidades, cresceu tanto orgânica quanto eleitoralmente.

A amálgama consistiu justamente nisso: em vez de realizar um balanço honesto do resultado eleitoral para construir unidade, fizeram o contrário — atacaram o ¡Ya Basta! com um vídeo falso da extrema direita, que repudiamos de forma imediata e incondicional.

Por outro lado, o internismo do FITU está devorando a própria frente. Entregaram o centro de Filosofia e Letras e agora vão divididos ao 1º de Maio — justamente quando é necessária a maior unidade na defesa da Fate e das demais lutas. Nosso partido propôs o oposto: uma intervenção unificada no ato da CGT em 30 de abril e/ou um ato unificado em torno da defesa da FATE e das demais lutas no 1º de Maio.

Ou seja, quando a etapa reacionária pressiona — podendo, ao mesmo tempo, deslocar-se ao centro ou à esquerda —, em vez de unificar a esquerda, faz-se o contrário: aplica-se um método permanente de provocação no interior da própria esquerda (inclusive com agressões físicas por parte da Lista Negra da Fate contra nossos companheiros).

Tudo isso remete, ainda, a uma questão de fundo no plano da construção política (já discutida em relação ao PO e agora aplicada ao PTS). O que se observa no PTS é uma concepção de “influência de massas” de cima para baixo, não orgânica. Enchem a boca para falar do balanço do velho MAS de 30 anos atrás, mas parecem não ter tirado nenhuma conclusão: a influência de massas, para ser real, deve ser orgânica; se ocorre à custa da construção orgânica, há algo profundamente errado.

Nosso partido é de vanguarda e ainda não possui influência de massas. Ainda assim, temos enorme orgulho de que o ¡Ya Basta! de Filosofia e Letras possui elementos de frente de massas, é orgânico e constitui a ponta de lança da construção do ¡Ya Basta! como a maior juventude anticapitalista da esquerda argentina.

Ser orgânico significa estar envolvido em todos os problemas da faculdade, ser os melhores estudantes, ter presença em todos os espaços, saber o que acontece em cada canto, possuir um programa anticapitalista concreto para a universidade, etc.

O atalho tático da manobra e da provocação jamais pode se sobrepor à política revolucionária e à construção orgânica: esse é um caminho para a derrota, como demonstrado pelo FITU em Filosofia e Letras da UBA.

A calúnia e a amálgama contra nosso partido devem cessar. Assim como a divisão da esquerda. Se a esquerda pretende ser um canal para uma eventual ruptura com o peronismo e para um ascenso da luta de classes, deve buscar um caminho de unidade baseado em princípios e estratégia — ou seja, anticapitalista e socialista.


Notas

[1] As eleições nos estados norte-americanos são estritamente de sua competência. Mas agora acontece que, para novembro próximo, o governo federal — ou seja, Donald Trump — está buscando manipular as eleições em vários estados e condados, condicionar suas autoridades eleitorais, exigir a revisão federal dos registros eleitorais, etc., todos mecanismos novamente amparados nas denúncias de suposta “fraude” nas eleições de 2020. Trata-se de um caso evidente de atropelo às regras do jogo da democracia burguesa (neste caso, imperialista).

[2] O novo projeto de lei de Reforma Eleitoral Integral é uma aberração bonapartista que pretende, basicamente, suprimir quase todos os partidos políticos. Trata-se, na realidade, de um Frankeinstein político que combina três leis em uma: Lei de Partidos PolíticosLei Eleitoral das PASO e Lei de Financiamento dos Partidos Políticos, que — algo que ninguém menciona — estabelece condições para a formação e manutenção dos partidos que, na prática, apenas o peronismo conseguiria cumprir.

[3] A própria patronal tem essa dúvida, além de estar dividida em torno do modelo mileísta. Há setores incondicionais, mas outros, como Paolo Rocca, estão denunciando a “destruição do tecido industrial” e reivindicam uma “abertura inteligente”.

[4] “Uma das particularidades que surgiu dos grupos focais (focus groups) e que chamou a atenção dos pesquisadores foi a dificuldade para dormir, relatada espontaneamente e registrada sem distinção de idade ou segmento. ‘À noite a cabeça fica girando com preocupações econômicas’, é uma das conclusões do relatório. Também se destaca a menção recorrente ao ‘consumo de álcool e ansiolíticos como auxiliares para dormir, assim como a decisão de recorrer à atenção psicológica’. A isso, Vilker acrescenta: ‘Surge na narrativa a ideia de que a crise atravessa o corpo e o afeta. Isso não havíamos visto em grupos focais anteriores’” (Jaquelin, La Nación, 27/04/26).

[5] Com “confusão estratégica” nos referimos, por exemplo, ao confuso ordenamento internacional que o trumpismo pode ter em mente, assim como ao “modelo de nação” do mileísmo, que deixa de fora mais da metade da população. Voltaremos a isso.

[6] Segundo o geógrafo marxista Mike Davis, as megalópoles se caracterizam por enormes concentrações urbanas com sistemas de transporte colapsados. Isso pode ser observado, por exemplo, tanto na Índia quanto na Argentina, com trens obsoletos que, nos horários de pico, transportam pessoas não apenas dentro dos vagões, mas também nos tetos dos mesmos ou das locomotivas.

[7] Ver, a esse respeito, nossa análise em “Engels antropólogo”, no Esquerda Web.

[8] Dizemos “cotidiana” porque a gestão controla o padrón eleitoral e levou a votar muita gente que já nem frequenta mais a faculdade, enquanto o FITU fez o mesmo à sua maneira.

[9] A eleição estudantil da Universidade de Buenos Aires (UBA) foi organizada de acordo com os aparelhos: realizada a cada dois anos e no início do ano letivo, é evidente que o corpo estudantil chega sem experiência acumulada e não consegue vivenciar as condições reais da universidade antes de tirar suas conclusões e votar.

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